Pecuarista fala da vacinação contra aftosa

Paulo Marques teme consequências irreparáveis caso aconteça algum foco da doença

Pecuarista fala da vacinação contra aftosa

"Eu quero vacinar meus animais"

 

Por Paulo de Castro Marques, pecuarista, proprietário da Casa Branca Agropastoril, programa de melhoramento genético das raças Angus, Brahman e Simental.

 

O programa de vacinação obrigatória do rebanho bovino brasileiro contra febre aftosa é uma das melhores iniciativas da pecuária nacional para impedir o aparecimento de uma doença que, comprovadamente, causa sérios prejuízos econômicos para os criadores e irreparáveis danos à imagem do Brasil como fornecedor de carne bovina.

Mesmo assim, o Plano Nacional de Erradicação da Febre Aftosa deverá, muito em breve, acabar com a vacinação contra a doença, sob o pretexto de que, livre da aftosa sem vacinação, nosso país terá as portas do mercado internacional de carnes (bovina e suína) escancaradas para a produção nacional.

Sabemos que a febre aftosa é uma doença de terceiro mundo e que fere a imagem do Brasil, segundo maior produtor de carne bovina do mundo e quarto maior produtor de carne suína.

Porém, também é fato que a vacinação contra essa terrível enfermidade protege de maneira inquestionável os rebanhos brasileiros. Tanto é verdade que o último caso ocorreu em 2006 há, portanto, 13 anos.

Não questiono a proposta de fim da vacinação. Claro, o ideal é deixar de vacinar o gado. Mas questiono a maneira como o processo está sendo conduzido. Parece que se pretende acelerar a decisão, quando o que importa na verdade não é o possível ganho econômico com o eventual crescimento das exportações de carnes, mas a efetiva proteção do rebanho brasileiro contra a febre aftosa.

Analisando ainda mais profundamente essa questão, me pergunto se nós, pecuaristas, seremos realmente beneficiados com o prematuro fim da vacinação obrigatória. Seremos?

Considero absolutamente aceitável o custo anual de cerca de R$ 3,00 por duas doses de vacina, aplicadas em duas oportunidades no ano.

Então, com o fim próximo da vacinação obrigatória, vou economizar R$ 3,00 por cabeça de gado. Mas o que vou ganhar a mais pela arroba comercializada com o frigorífico? Será que somente o custo da vacina/ano é suficiente para eu arriscar a sanidade do meu rebanho contra uma doença traiçoeira como a aftosa? Não estou convencido.

O ponto central dessa questão é que, como pecuarista, quero ter tranquilidade de que a aftosa não me incomoda, que meus animais estão protegidos. Hoje estou tranquilo. Sem a vacinação, certamente dormirei mais preocupado.

O que também está merecendo uma explicação mais detalhada das autoridades é que com o fim da vacinação obrigatória os pecuaristas não poderão imunizar mais os seus animais contra a aftosa. Em outras palavras: hoje, a vacinação é exigida por lei; depois, se você vacinar será punido pela mesma lei.

Tem também a questão das fronteiras secas. O Brasil tem mais de 17 mil km de divisas com países vizinhos. Eles já avisaram que não deixarão de vacinar seus animais. Mas o que acontece se os seus bovinos ultrapassarem as fronteiras e vierem para o lado brasileiro? Estamos realmente preparados para vigiar com eficácia o tráfego de bovinos com os países vizinhos?

E se, por ventura, houver algum surto. Claro, o vírus da aftosa pode ser transmitido pelo ambiente. Teremos vacina em estoque para tomar medidas rápidas e eficazes?

São muitas perguntas sem respostas claras. Não consigo entender para que acelerar esse processo, sendo que o programa de vacinação obrigatória funciona muito bem. O tempo dirá se vamos comemorar vitória ou vamos lamentar uma dolorosa derrota.