IAPAR: Porque investir na pesquisa pública no Paraná

Grupo de Pesquisadores divulga manifesto ressaltando o papel da pesquisa pública

IAPAR: Porque investir na pesquisa pública no Paraná

A agricultura paranaense e a brasileira experimentaram muitos avanços nos últimos 50 anos. De uma agricultura de subsistência até 1960, onde o país importava desde arroz e feijão até derivados de leite e carne enlatada, passamos por um pujante processo de modernização da agricultura, embarcamos na revolução verde, criamos nossas próprias instituições de pesquisa, a EMBRAPA e o IAPAR aqui no Paraná e tropicalizamos nossa agricultura tornando-a uma das mais pujantes e exportadoras do planeta.

Durante os anos 80 e 90, o estado do Paraná transformou-se em exemplo nacional e internacional de produção com respeito à natureza com seus programas de Conservação de Solos, Geração de Renda e Diversificação Agrícola servindo como um alicerce seguro para o desenvolvimento da iniciativa privada, desde os pequenos até os grandes produtores, as cooperativas agroindustriais e as agroindústrias, enfim criando um ambiente sinérgico que tem mantido o Paraná na vanguarda da agropecuária nacional.

O IAPAR desempenhou um importante papel nesses avanços tecnológicos, desenvolvendo o Sistema de Plantio Direto com rotação de culturas anuais e adubos verdes, definindo a base técnica da Conservação de Solos do PARANARURAL. Por outro lado, o melhoramento genético vegetal disponibilizou inúmeras cultivares de espécies anuais e perenes com alto potencial de rendimento, resistência a fatores bióticos e abióticos adversos e produtos com boa qualidade comercial, tecnológica e nutricional.

Essas cultivares contribuíram significativamente para o aumento da renda na propriedade, redução do custo de produção e agregação de valor ao produto, proporcionando a prática de uma agricultura mais sustentável, voltada para o bem-estar do agricultor, consumidor e preservação do meio ambiente.  

No melhoramento genético animal uma nova raça bovina, a raça Purunã, foi desenvolvida proporcionando a melhoria da qualidade do rebanho no estado.  Os estudos de climatologia permitiram avanços no zoneamento agroclimático. Todos estes avanços somados aos novos conhecimentos em engenharia agrícola, biotecnologia, fitotecnia, nematologia, proteção de plantas, dentre outros tantos, tem permitido aos agricultores do Paraná avançar na questão do uso das boas práticas agrícolas. Recentemente as Redes de Propriedades de Referência em conjunto com a EMATER vem validando e apoiando o desenvolvimento de sistemas de produção sustentáveis para a agricultura familiar.

É inegável que o IAPAR trouxe grande contribuição à agropecuária paranaense e brasileira, mas após um período de glória, desde o final dos anos 2000, tem enfrentado sérios problemas. Isso decorre, sobretudo, da falta de reposição do quadro de pessoal que se aposenta, passando a viver dos troféus do passado, com uma administração que posterga a adoção de medidas de choque para fazer frente a um ambiente de rápida e contínua transformação. Nos tempos atuais, não cabe ao Estado cuidar da inovação tecnológica na agricultura em todas as áreas. É imperativo discutir prioridades e fazer verdadeiramente um planejamento estratégico. Existe um espaço reservado para o setor público de pesquisa agropecuária que deve priorizar o desenvolvimento de processos e de alguns produtos estratégicos que se encontram fora dos interesses imediatos da iniciativa privada.

ÁREAS DE EXCELÊNCIA ATUAIS

MANEJO E CONSERVAÇÃO DE SOLOS E ÁGUA

A conservação de solos e água é nosso DNA, fizemos muito no passado e estamos fazendo no presente. Como exemplo podemos citar o Programa Estadual de Microbacias da SEAB, o PROSOLO executado com parceiros da iniciativa pública e privada, o Projeto Solo Vivo com EMBRAPA, o Projeto IBITIBA com ITAIPU. Existe atualmente um grande esforço neste tema tão importante e estratégico para o Paraná, e é necessário reforço de pessoal nesse tema.

RECURSOS GENÉTICOS E CRIAÇÃO DE VARIEDADES

Conceder alta prioridade a feijão, cereais de inverno: trigo, aveia e triticale, café, mandioca, adubos verdes/plantas de cobertura, frutas priorizadas, milho: variedades e híbridos rústicos, forrageiras. Em soja e milho promover a avaliação de cultivares de forma independente. Reforço de pessoal e foco nos produtos prioritários.

SISTEMAS DE PRODUÇÃO SUSTENTÁVEIS

Intensificar ações em sistema plantio direto com qualidade, integração lavoura-pecuária, sistemas pecuários sustentáveis, sistemas de produção integrada na fruticultura, sistemas agroecológicos.

CONTROLE BIOLÓGICO, BIOATIVAÇÃO DE SOLOS E MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS, DOENÇAS E NEMATÓIDES   

Existe necessidade de um esforço considerável em tecnologias biológicas em substituição aos manejos químicos que estão atingindo níveis intoleráveis na agricultura paranaense.

NOVAS PROPOSTAS

DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIAS DIGITAIS

Desenvolver novos projetos em parcerias público-privadas de inovações no acesso à tecnologia para os diferentes tamanhos de produtores: uso de GPS, drones, sensores, aplicativos de celular para levantamentos de pragas e doenças, amostradores de solo, dados climáticos, previsão de eventos, gestão de propriedades, controles técnicos. Estimular Startups e construir sistemas modernos de participação dos inventores e produtores na geração e adoção de inovações.

CERTIFICAÇÃO DE PROPRIEDADES

Desenvolver sistemas de avaliação de produção e de sustentabilidade de unidades produtivas pode, por meio de parcerias público-privadas com EMATER, FAEP, COOPERATIVAS, ITAIPU, FEBRAPDP dentre outras, criar parâmetros a serem seguidos pelos produtores e empresas para reconhecimento e pagamento por serviços ambientais àqueles que demonstrarem excelência nas ações e melhor aceitação nos mercados.

NANOTECNOLOGIAS

Atualmente a solução para grandes desafios não está necessariamente associada a tecnologias de grande escala. Num mundo invisível, no qual partes de seres vivos, como células e fibras, são analisadas com detalhes de um bilionésimo de metro, estão infinitas soluções para uma série de problemas que afligem a humanidade, como doenças, fome e degradação ambiental. Assim como a EMBRAPA, o IAPAR deve iniciar pesquisas nesse campo.

O que mais falta ao IAPAR nesse momento é coragem e criatividade para implementar as mudanças necessárias face aos novos tempos, com um verdadeiro choque de gestão. Salários estão bem ajustados e competitivos com a realidade do mercado. Mas as prioridades de pesquisa estão dispersas. Existem 15 Programas de Pesquisa, 19 Áreas Técnicas de Conhecimento e mais de 40 Divisões, Áreas e Gerências Administrativas, além de 5 Polos Regionais e 19 Estações Experimentais. Enquanto isso o Quadro de Pessoal está próximo de 470 funcionários e 85 pesquisadores (de um quadro previsto de 250) que são o cerne da massa crítica institucional, responsáveis pela elaboração e condução de projetos de pesquisa e desenvolvimento. Nitidamente existem muitos caciques para poucos índios. O controle de assiduidade e tamanho de jornada deve ser intensificado e enrijecido. Mesmo com reavaliações da programação de pesquisa, essas têm sido pouco rigorosas com relação aos resultados alcançados e pouco propositivas em termos de novas demandas. A Carteira de projetos se arrasta com cerca de 220 projetos, 80% deles antigos, com uma baixa taxa de renovação e poucos novos resultados de destaque.

É iminente discutir um elenco pequeno de prioridades essenciais junto com a sociedade usuária e concentrar esforços no que é importante. O IAPAR deve estar aberto a um processo participativo muito transparente onde FAEP, OCEPAR, FETAEP e outras organizações dos agricultores tenham participação de destaque, até na forma de gestão, com uma participação mais intensa não só no Conselho de Administração. A articulação das ações com as Universidades e com a Secretaria de Ciência e Tecnologia e seus Fundos é essencial. De há muito o IAPAR deveria receber uma alíquota permanente dos Fundos Públicos que detém 2% da arrecadação para Ciência e Tecnologia.

O IAPAR, para cumprir a missão de “prover soluções inovadoras para o meio rural e o agronegócio do Paraná”, necessita de um mínimo de contratações de pesquisadores, técnicos agrícolas e de laboratório e alguns administrativos. Esse esforço de contratação seria fruto de uma revisão de sua estrutura administrativa, onde com certeza existe espaço para aliviar o peso da estrutura e gerar os recursos necessários.

A pesquisa pública estadual trouxe grandes benefícios à sociedade paranaense e seu recrudescimento certamente trará grande retrocesso. Responder regionalmente aos desafios da agricultura certamente será a grande contribuição do IAPAR ao Estado do Paraná.

Somente um esforço decidido de articulação, com a definição de prioridades pertinentes, administração firme e reposição estratégica de quadros pode levar o Instituto à excelência que a sociedade paranaense requer.

Assina o manifesto: Grupo de Pesquisadores do IAPAR para a Proposta de Plano de Governo